Tecnologia automática viabiliza reciclagem de 70 mil toneladas de fraldas e absorventes antes tratadas como lixo impossível

Uma solução industrial criada para o setor de higiene pessoal demonstrou capacidade de reciclar mais de 70 mil toneladas de fraldas descartáveis, absorventes femininos e tapetes higiênicos para pets, resíduos que até recentemente eram classificados como “lixo impossível”. O sistema automatizado separa cada produto em três frações comerciais — celulose, polímero superabsorvente (SAP) e plástico — e devolve esses materiais, em alto grau de pureza, à cadeia produtiva.

Como o processo funciona

O método adota tecnologia air-less, dispensando compressores pneumáticos volumosos. Em vez disso, utiliza empilhamento vertical e gravidade para deslocar as partículas ao longo da linha. Essa configuração reduz o consumo energético para cerca de 5 kW por módulo, patamar considerado baixo para operação ininterrupta. Cada módulo ocupa aproximadamente 3 m² e é capaz de processar 500 kg de resíduos por hora.

A separação começa pela abertura controlada da fralda ou do absorvente. Em seguida, os fragmentos seguem por estágios sucessivos que isolam a celulose, preservam o SAP em seu estado original e destacam o plástico já pronto para peletização. O desenho do equipamento minimiza trituração e superaquecimento, fatores que costumam degradar o polímero superabsorvente. Segundo os desenvolvedores, é possível recuperar quase 100 % do SAP com desempenho intacto, o que permite reutilizá-lo em novos itens de higiene ou aplicações absorventes.

Impacto ambiental e econômico

A tecnologia reduz o volume destinado a aterros sanitários, diminui a necessidade de plásticos de origem fóssil e evita a extração de fibras de celulose virgem. Ao transformar resíduos complexos em matérias-primas valorizadas, o processo reforça princípios de economia circular e cria novas fontes de receita para fabricantes e operadores de resíduos.

Em comparação com sistemas baseados em ar comprimido, o novo equipamento corta entre 90 % e 95 % dos gastos com energia. O nível de ruído operacional foi medido em 81,5 dBA, índice compatível com ambientes fabris sem exigir blindagem acústica de grande porte.

Modularidade e integração

Cada unidade pode trabalhar isoladamente ou em conjunto com até 50 módulos, o que facilita adequação a diferentes escalas de produção. Há opções de “upgrades” para refinar a separação de plástico, celulose e SAP ou para adicionar etapas de purificação extra, conforme o padrão de qualidade exigido pelo cliente.

A instalação não requer reformulação completa da planta industrial existente. O projeto foi concebido para integrar-se a linhas novas ou legadas, reduzindo investimento inicial (CAPEX). Na alimentação do sistema, é possível escolher entre carregamento manual, esteiras automáticas ou empilhadeiras, permitindo que a solução se adapte ao desenho logístico da fábrica ou do centro de triagem.

Aplicações e testes

Foram realizados ensaios com fraldas infantis, fraldas geriátricas, absorventes noturnos, protetores diários e tapetes para animais de estimação. Ajustes finos nos parâmetros — tempo de residência, temperatura controlada e velocidade de fluxo — compensam as variações na proporção entre plástico, celulose e SAP presentes em cada SKU.

Os resultados, segundo os responsáveis pelo projeto, mostram que todos esses itens podem ser reciclados no mesmo equipamento sem comprometer a eficiência ou a pureza do material de saída. A flexibilidade amplia o potencial de adoção por cooperativas, consórcios municipais, operadores privados de resíduos e fabricantes de produtos de higiene.

Próximos passos para a economia circular

Com a marca das 70 mil toneladas já processadas, os desenvolvedores negociam novas parcerias com administrações públicas e empresas de gerenciamento de resíduos sólidos. A meta é instalar linhas modulares próximas a locais de maior geração de fraldas e absorventes, reduzindo transporte e custos de destinação final.

A iniciativa abre caminho para modelos de negócios em que a própria indústria de higiene assume a responsabilidade pelo fim de vida de seus produtos, transformando um passivo ambiental em ativo econômico. Caso se expanda, a tecnologia poderá influenciar políticas de logística reversa e metas de redução de resíduos em escala global.

Embora o desafio de reciclar artigos descartáveis complexos permaneça, o sistema demonstra que a combinação de automação, baixo consumo energético e preservação do SAP pode romper a barreira do “lixo impossível” e criar um ciclo virtuoso entre produção, consumo e reaproveitamento.

(17 de fevereiro de 2026 — 11h05)

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