Reliance e Adani destinam US$ 210 bilhões a centros de dados de IA na Índia

Em um movimento que reforça a corrida pela inteligência artificial (IA) no mercado indiano, Reliance Industries e Adani Enterprises confirmaram investimentos que, somados, chegam a US$ 210 bilhões. Os anúncios foram feitos durante o AI Impact Summit 2026, realizado em Nova Delhi, e posicionam os dois maiores conglomerados privados do país como protagonistas no desenvolvimento de infraestrutura de IA.

A maior fatia parte da Reliance, que destinou US$ 110 bilhões para o projeto. Já o grupo Adani planeja desembolsar US$ 100 bilhões em iniciativas que se estendem até 2035. Embora expressivo, o volume conjunto de recursos ainda fica abaixo dos aproximadamente US$ 700 bilhões que grandes empresas norte-americanas pretendem aplicar em IA em 2026.

Ao anunciar o aporte, o presidente da Reliance, Mukesh Ambani, destacou a ambição de democratizar o acesso às tecnologias de inteligência artificial. “Nossa determinação é clara: tornar a inteligência tão ubíqua quanto a conectividade”, declarou o bilionário, sinalizando que a estratégia inclui reduzir o custo de dados e ampliar o alcance de soluções baseadas em IA em todo o território indiano.

Para sustentar essa expansão, a Reliance desenvolve data centers multi-gigawatts preparados para IA. Entre as instalações em construção está um complexo que adicionará mais de 120 megawatts de capacidade já na segunda metade deste ano. De acordo com a companhia, as unidades serão alimentadas prioritariamente por fontes renováveis, medida que busca conter despesas com energia em operações de alta intensidade computacional.

O grupo Adani também definiu a adoção de energia limpa como parte central do plano de US$ 100 bilhões. Em comunicado divulgado na terça-feira, dia 17, a empresa informou que os recursos apoiarão a criação de uma cadeia de centros de dados habilitados para IA até 2035, todos conectados a matrizes de geração renovável. A iniciativa pretende atrair empresas de tecnologia que demandam grandes volumes de processamento, além de oferecer serviços de nuvem alinhados a metas de emissões reduzidas.

A movimentação de ambas as companhias acontece em um contexto em que a Índia desponta como um dos mercados de tecnologia que mais crescem no mundo. Com uma população extensa e digitalizada, o país apresenta condições favoráveis para a adoção de soluções de IA em setores como telecomunicações, varejo, serviços financeiros e administração pública. Mesmo assim, especialistas alertam para desafios que acompanham investimentos de grandes proporções.

Segundo Aishvarya Dadheech, fundador e diretor de investimentos da Fident Asset Management, “a Reliance procura construir uma IA totalmente integrada na Índia, mas a execução e a monetização permanecem riscos chave”. A avaliação ressalta a necessidade de converter a infraestrutura em serviços rentáveis, ao mesmo tempo em que se driblam eventuais limitações regulatórias e de capacitação de mão de obra especializada.

O otimismo empresarial não impediu reações cautelosas no mercado financeiro. O volume robusto de compromissos assumidos por conglomerados indianos, somado à expectativa de retorno de longo prazo, acabou alimentando o ceticismo de investidores. Essa desconfiança teve reflexo direto nas bolsas locais: em fevereiro, a capitalização do mercado indiano recuou em torno de US$ 50 bilhões, perda atribuída à leitura de que projetos desse porte podem pressionar fluxos de caixa no curto prazo.

Apesar do impacto inicial, Reliance e Adani mantêm o calendário de implantação de suas operações. A Reliance, por exemplo, já sinalizou fases adicionais de expansão de capacidade além dos 120 megawatts previstos para este ano, enquanto a Adani estuda integrar os futuros centros de dados a parques solares e eólicos próprios. As duas empresas pretendem ainda explorar parcerias com provedores de nuvem pública e com startups indianas de IA, na tentativa de acelerar o preenchimento de racks, reduzir o tempo de maturação dos ativos e estimular o ecossistema nacional.

Analistas observam que a aposta em energia renovável pode se mostrar decisiva na competitividade dos novos data centers, dado que o consumo de eletricidade responde por parcela significativa dos custos de operação. Nesse cenário, a localização de unidades próximas a plantas solares ou eólicas deve contribuir para limitar gastos operacionais e garantir estabilidade de fornecimento, aspecto considerado crítico em centros de processamento de alto desempenho.

Enquanto isso, o governo acompanha de perto o avanço da infraestrutura, uma vez que investimentos privados dessa magnitude tendem a exigir melhorias na rede de transmissão e em políticas de incentivos fiscais. Até o momento, as autoridades não anunciaram mudanças específicas, mas mantêm diálogo com o setor empresarial para avaliar eventuais ajustes que possam viabilizar a criação de hubs tecnológicos regionais.

Com aportes que somam US$ 210 bilhões, Reliance Industries e Adani Enterprises dão sequência à estratégia de consolidar a Índia como polo emergente de inteligência artificial, apoiando-se em centros de dados de grande porte e fontes de energia renovável. A execução dos projetos ao longo da próxima década deverá indicar se o país conseguirá transformar o impulso atual em liderança sustentável no cenário global de IA.

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