Receio em torno da IA elimina US$ 50 bilhões em valor de mercado das companhias de TI indianas

Mumbai, 13 de fevereiro de 2026 – O setor de tecnologia da informação da Índia encerrou a semana com o maior recuo em dez meses. Entre o início de fevereiro e esta sexta-feira (13), as empresas listadas em bolsas indianas perderam, juntas, cerca de US$ 50 bilhões em valor de mercado, refletindo a crescente apreensão dos investidores diante dos custos adicionais ligados à adoção de inteligência artificial (IA).

O movimento negativo ganhou força depois que, em janeiro, a startup americana Anthropic lançou uma ferramenta de IA generativa que acelerou discussões sobre eventuais mudanças estruturais na indústria global de software. A novidade desencadeou uma onda de vendas (“sell-off”) nas praças indianas, onde o mercado de TI é estimado em US$ 283 bilhões.

Queda disseminada no índice setorial

O Nifty IT – referência para as principais companhias de tecnologia listadas no país – recuou 8,2% na semana, resultado que configura a pior performance desde abril do ano passado. A pressão vendedora se estendeu por toda a cadeia de serviços de TI, de grandes integradoras a fornecedores menores, alimentada pelo temor de que o avanço da IA gere despesas adicionais antes que novas receitas se materializem.

Relatório divulgado por analistas do J.P. Morgan avalia que parte significativa do mercado teme um descompasso entre investimentos e retorno financeiro. Segundo o banco, clientes corporativos podem optar por redirecionar orçamentos de transformação digital se concluírem que soluções baseadas em IA entregam ganhos mais rápidos do que contratos tradicionais de terceirização de TI.

Embora o sentimento predominante tenha sido de cautela ao longo da semana, operadores relataram algum alívio nas últimas horas do pregão desta sexta-feira. Investidores viram oportunidade para recompor posições em companhias negociadas a múltiplos considerados atípicos. Ainda assim, a recuperação parcial não foi suficiente para compensar a desvalorização acumulada desde o início do mês.

Preocupação extrapola fronteiras indianas

O receio sobre as implicações financeiras da inteligência artificial não se limita ao mercado local. Na semana anterior, ações da Alphabet, controladora do Google, também haviam recuado em Nova York, mesmo após a divulgação de lucros acima das expectativas. A leitura prevalente foi de que novos desembolsos em IA podem pressionar margens no curto prazo, cenário que se repete no ambiente indiano.

Consultores de mercado apontam que, apesar das incertezas, a Índia continua a ocupar posição estratégica no fornecimento global de serviços de tecnologia. O país abriga centenas de milhares de programadores e engenheiros de software que operam, há décadas, contratos multibilionários com empresas da Europa, da América do Norte e da Ásia-Pacífico. A discussão atual gira em torno de como ajustar esse modelo diante da rápida expansão de ferramentas baseadas em IA generativa.

Análise das casas de investimento

Em nota distribuída a clientes, o J.P. Morgan considerou “simplista demais” concluir que a IA substituirá, de forma automática, o trabalho realizado pelas grandes prestadoras de serviços. O banco argumenta que soluções corporativas de software exigem integração a sistemas legados, configuração específica para cada cliente e governança robusta de dados – tarefas que continuam a demandar equipes especializadas.

“As empresas de serviços de TI permanecem atuando como ‘encanadores’ do ecossistema digital. Mesmo que softwares empresariais passem a ser reescritos por agentes de IA, haverá necessidade de expressivo trabalho de integração para garantir funcionamento no ambiente corporativo e evitar desperdícios”, escreveram os analistas.

Especialistas independentes ouvidos durante a semana compartilharam avaliação semelhante. Para eles, as demissões pontuais motivadas por automatização não significam, necessariamente, perda estrutural de relevância das provedoras indianas. A expectativa é de uma transição para quadros mais enxutos, porém altamente qualificados, capazes de oferecer serviços complementares às soluções de IA.

Perspectivas para 2026

A discussão sobre custos antecipados ganhou intensidade depois que diversas empresas declarararam, em conferências de resultados recentes, a intenção de ampliar investimentos já em 2026. As projeções incluem aquisição de hardware especializado, treinamento de modelos proprietários e contratação de talentos em ciência de dados, itens que exigem capital significativo upfront.

Investidores, por sua vez, questionam se a demanda dos clientes finais crescerá no mesmo ritmo. O temor de que uma parcela do orçamento migre de contratos tradicionais para iniciativas vinculadas a IA pressiona as estimativas de crescimento das consultorias indianas no médio prazo.

Reação do mercado nesta sexta-feira

Apesar do saldo amplamente negativo no acumulado do mês, o pregão de hoje registrou melhora pontual. Gestores de fundos de longo prazo aproveitaram o recuo para adquirir papéis de companhias líderes, avaliando que os fundamentos de médio e longo prazo permanecem sólidos. O giro financeiro, porém, ficou abaixo da média, sugerindo que parte dos operadores ainda prefere aguardar sinais mais claros sobre a real magnitude dos investimentos em IA.

Com o fechamento desta sexta-feira, o valor de mercado perdido pelas empresas de TI desde 1º de fevereiro alcança aproximadamente US$ 50 bilhões, montante que supera com folga qualquer correção vista nos últimos dez meses. As próximas divulgações de resultados corporativos, previstas para o fim de março, devem oferecer novos elementos sobre a velocidade de implementação de projetos de inteligência artificial e seus efeitos nas margens de lucro.

Enquanto isso, analistas recomendam cautela. O consenso é de que a IA representa oportunidade relevante, mas o cronograma de monetização ainda é incerto. Até lá, a volatilidade deve continuar moldando o comportamento das ações de tecnologia na Índia e em outras praças sensíveis aos custos iniciais da próxima onda de inovação.

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