Nobel de Química cria equipamento que produz até 1.000 litros de água por dia a partir do ar
Uma solução inédita para a escassez hídrica foi apresentada por uma startup comandada pelo químico Omar Yaghi, vencedor do Prêmio Nobel de Química de 2025. A empresa desenvolveu um sistema que retira vapor d’água da atmosfera mesmo em regiões muito secas e entrega água potável sem depender de rede elétrica convencional.
Como funciona a tecnologia
O coração do equipamento são os materiais metal-orgânicos (MOFs), estruturas altamente porosas capazes de capturar moléculas de água com umidade relativa baixa. O processo ocorre em dois estágios:
- Durante a noite ou em períodos mais frescos, os MOFs absorvem a umidade presente no ar.
- No dia seguinte, a luz solar ou calor residual industrial aquece o material, liberando o vapor, que é condensado e armazenado como água ultrapura. Se necessário, o líquido recebe sais minerais para adequar o sabor e atender a padrões de consumo.
Duas escalas de produção
A startup colocou em operação dois formatos de equipamento:
- Protótipo de campo: compacto, produz aproximadamente 200 litros diários e serve para medir desempenho, vida útil dos MOFs e adaptação a diferentes climas.
- Unidade comercial: montada em estrutura do tamanho de um contêiner marítimo, planejada para gerar cerca de 1.000 litros por dia. O módulo pode ser transportado em caminhões e instalado próximo a indústrias, data centers ou comunidades isoladas.
Segundo o cronograma da empresa, as primeiras vendas estão previstas para o segundo semestre de 2026. Os alvos iniciais incluem centros de processamento de dados, usinas de hidrogênio verde e localidades afetadas por seca crônica.
Testes em ambiente extremo
Para validar o desempenho sob condições severas, o time de Yaghi levou o equipamento ao Vale da Morte, no estado da Califórnia (EUA), onde a umidade é baixa e as temperaturas são elevadas. Os experimentos avaliaram:
- Eficiência de captura de vapor em clima desértico;
- Estabilidade dos MOFs após múltiplos ciclos de absorção e liberação;
- Resistência mecânica do sistema e frequência de manutenção;
- Qualidade da água produzida.
Os resultados, segundo a empresa, confirmaram a capacidade de operação contínua sem trocas frequentes do material adsorvente, fator considerado crucial para reduzir custos em áreas com suporte técnico limitado.
Vantagens ambientais
A startup sustenta que a extração de água do ar oferece impacto ambiental menor que soluções tradicionais de grande porte, como barragens ou perfurações de aquíferos. Entre os principais pontos positivos estão:
- Dispensa obras intensivas de infraestrutura e longas redes de tubulação;
- Aproveita energia solar ou calor excedente, reduzindo a demanda de eletricidade da rede;
- Não gera emissões diretas de gases de efeito estufa no processo de obtenção da água;
- Evita sobreexploração de reservas subterrâneas.
Desafios pela frente
Apesar do potencial, especialistas apontam entraves que ainda precisam ser resolvidos:
- Elevado custo inicial de fabricação, que pode limitar o acesso em comunidades de baixa renda;
- Adaptação a diferentes níveis de umidade, exigindo calibrações específicas por região;
- Integração com sistemas locais de distribuição e armazenamento de água.
Projetos-piloto em contextos variados devem fornecer dados sobre preço por litro, longevidade dos MOFs e modelos de financiamento. A expectativa é que, com produção em escala, o valor da tecnologia caia e se torne complementar a alternativas como dessalinização, reuso de efluentes e captação de chuva.
Com a oferta de um método que opera fora da rede elétrica e independe de fontes hídricas tradicionais, a equipe de Omar Yaghi pretende levar a segurança hídrica a regiões onde a falta de água ameaça a agricultura, a saúde pública e o desenvolvimento econômico. Se os prazos forem cumpridos, as primeiras unidades comerciais deverão sair da linha de produção em menos de dois anos.



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