Mecanismo de Anticítera: engenho grego de 2 000 anos revolucionou o cálculo astronômico

Atenas — Um artefato de bronze recuperado de um naufrágio próximo à ilha grega de Anticítera continua a surpreender pesquisadores mais de um século após sua descoberta. Datado de aproximadamente 100 a.C., o chamado Mecanismo de Anticítera é considerado o primeiro computador analógico já construído, graças à capacidade de prever com notável precisão posições celestes, fases da Lua e eclipses.

Peça central do Museu Arqueológico Nacional

Os fragmentos do dispositivo, atualmente expostos no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, formam um conjunto do tamanho aproximado de um notebook moderno. Sob a superfície corroída pelo tempo, radiografias e tomografias revelam dezenas de rodas dentadas interligadas, escalas gravadas e inscrições em grego antigo. Esses elementos permitiam aos usuários girar uma manivela externa e, em seguida, observar ponteiros avançarem sobre mostradores calibrados para diversos ciclos astronômicos.

Engenharia para medir o céu

Cada engrenagem foi esculpida de forma a representar proporções matematicamente ajustadas aos movimentos do Sol, da Lua e dos cinco planetas visíveis a olho nu — Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Estudos indicam que os números de dentes correspondem a séries conhecidas pelos astrônomos helenísticos, como o ciclo metônico, que iguala 19 anos solares a 235 meses lunares, e o ciclo de Saros, de cerca de 18 anos e 11 dias, utilizado para antecipar eclipses.

Ao acionar a alavanca, os eixos moviam simultaneamente diferentes conjuntos de engrenagens, permitindo sincronizar calendários, projetar fases lunares e estabelecer datas de jogos pan-helênicos. A caixa de madeira original, hoje perdida, possuía mostradores frontais e traseiros que exibiam essas informações num arranjo de leitura rápida para quem o manuseava.

Origem coríntia e escola de Arquimedes

Inscrições que registram nomes de meses e referências a festivais esportivos vinculam o instrumento à tradição científica da região de Corinto, em especial à cidade siciliana de Siracusa. Pesquisadores veem nesse contexto indícios de ligação com a escola de Arquimedes, célebre por combinar matemática e mecânica. Embora não exista prova conclusiva de autoria, o grau de sofisticação do mecanismo está em sintonia com aparelhos descritos por estudiosos ligados ao matemático.

Influência duradoura

Depois de permanecer quase dois milênios submerso, o Mecanismo de Anticítera deixou poucas evidências de continuidade direta na Antiguidade. Ainda assim, sua lógica de engrenagens de precisão reaparece séculos mais tarde em relógios astronômicos europeus medievais e em instrumentos desenvolvidos no Oriente Médio. A semelhança estrutural sugere que conhecimentos fragmentários sobre sistemas de rodas dentadas sobreviveram, influenciando o avanço da relojoaria e da navegação.

Nas últimas décadas, técnicas de varredura por raios X, modelagem tridimensional e fotografia de alta resolução permitiram reconstruir, virtualmente, o interior do equipamento. Essas análises ajudaram a identificar inscrições quase ilegíveis a olho nu, confirmando funções como previsão de eclipses, indicação de fases lunares e representação do chamado mês lúnisolar, que conciliava a contagem dos dias solares com o ciclo da Lua.

Funcionamento detalhado

Modelos computacionais apontam que o dispositivo continha pouco mais de 30 engrenagens principais, distribuídas em três sub-conjuntos. O primeiro controlava o disco solar e o calendário anual; o segundo reproduzia as variações da órbita lunar, levando em consideração a excentricidade da Lua; e o terceiro projetava fenômenos cíclicos de longa duração, como o retorno periódico dos eclipses. Pontos indicadores herdavam o sentido de rotação e a velocidade exata a partir da soma ou da diferença dos dentes nas rodas interligadas.

Valor para a história da ciência

A complexidade alcançada pelo mecanismo obriga hoje arqueólogos e historiadores a rever estimativas sobre o nível tecnológico do mundo helenístico. Até sua recuperação, imaginava-se que engrenagens precisas só tivessem aparecido na Europa medieval. O aparelho grego demonstra que, já no século I a.C., artesãos dominavam técnicas de corte e encaixe fino de metal, assim como conceitos matemáticos suficientes para converter observações celestes em fórmulas mecânicas.

Por reunir matemática, astronomia e maestria na metalurgia, o Mecanismo de Anticítera permanece como estudo de caso essencial para compreender a evolução das ciências exatas. Cada nova imagem de raio X ou fragmento decifrado amplia a visão sobre como antigas civilizações dialogavam com o céu — e sobre como transformavam esse conhecimento em instrumentos concretos para uso cotidiano.

Enquanto pesquisas continuam, o artefato exposto em Atenas segue despertando a curiosidade de visitantes e especialistas. Entre blocos de bronze corroídos, ele guarda a prova de que, há dois milênios, engenheiros gregos já traduziam o movimento dos astros em engrenagens capazes de quantificar o tempo com impressionante exatidão.

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