Usuários relatam fadiga diante da expansão de recursos de inteligência artificial

A presença quase ubíqua de recursos de inteligência artificial (IA) em serviços de tecnologia tem provocado fadiga entre consumidores e profissionais. A sensação ganhou força com a popularização de sistemas generativos, capazes de criar texto, imagens e vídeo a partir de dados prévios, como fazem ChatGPT e Gemini. Cinco episódios recentes ilustram o desgaste causado pelo excesso de IA.

Protesto contra o “Microslop”

No fim de 2025, Satya Nadella, CEO da Microsoft, publicou em seu blog um pedido para que o público deixasse de qualificar o conteúdo gerado por IA como “slop” — termo que pode ser traduzido como “lixo”. A resposta nas redes foi imediata: usuários passaram a ironizar a empresa com a palavra “Microslop”. A insatisfação teve origem, principalmente, na inclusão de funções de IA consideradas irrelevantes no Windows 11. Um dos exemplos citados foi a ferramenta que cria livros de colorir no Paint por meio de algoritmos. A reação chegou a inspirar uma extensão de navegador que substitui automaticamente “Microsoft” por “Microslop” em páginas da web.

Mercado de AI PCs esbarra em baixa procura

Fabricantes de computadores e a própria Microsoft apostam em máquinas com capacidade de executar modelos de IA localmente, os chamados AI PCs. Entretanto, a demanda permanece limitada. No início de 2026, Jeff Clarke, vice-presidente e diretor de operações da Dell, admitiu que a tecnologia “não entregou o prometido” em 2025 e que a expectativa de aumento de vendas não se concretizou. Para o executivo, essa situação continuará sendo um desafio ao longo de 2026. Além do preço mais alto, consumidores ainda avaliam poucas vantagens práticas nesses equipamentos.

Busca por hábitos mais analógicos

Ao lado de celulares, PCs e outros eletrônicos com inteligência artificial, televisores, painéis de veículos, geladeiras e alto-falantes também passaram a exibir recursos do tipo. Como resposta, cresce o movimento em favor de um cotidiano mais analógico. Adeptos deixam de usar wearables durante atividades físicas, preferem revistas ou livros em papel, adotam hobbies manuais — como tricô ou artesanato — e até retornam às câmeras fotográficas com filme. O objetivo é reduzir a exposição a dispositivos inteligentes e, por consequência, ao fluxo constante de recomendações baseadas em algoritmos.

Pesquisa indica preferência por buscas tradicionais

Em 19 de janeiro de 2026, a DuckDuckGo lançou uma enquete online perguntando aos usuários se preferiam pesquisas na web com auxílio de IA ou resultados convencionais. Encerrada em 26 de janeiro, a consulta contou com mais de 175 mil participações: 90% optaram pela busca tradicional. O resultado sugere resistência a mecanismos que integram respostas geradas por IA, como o Modo IA do Google.

Ferramentas contra a IA ganham espaço

Com o avanço da fadiga, surgem soluções que prometem eliminar ou ocultar funcionalidades baseadas em inteligência artificial. Entre os exemplos mais recentes estão:

  • Just the Browser — script que remove componentes de IA dos navegadores Chrome, Edge e Firefox;
  • RemoveWindowsAI — código aberto destinado a desativar o Copilot, o Recall e outros recursos de IA no Windows 11;
  • Hide Gemini and Google AI — extensão que esconde o Gemini e funções de IA em serviços do Google, como Gmail e Drive. Há versões para Chrome e Firefox;
  • udm14 — método que adiciona o parâmetro &udm=14 ao endereço do Google para exibir resultados sem IA generativa; o mesmo efeito pode ser obtido por meio do site udm14.

Sinais de sobrecarga entre profissionais

Relatos de excesso de informação e falta de controle acompanham a expansão dos agentes de IA — programas que prometem executar tarefas em nome do usuário. Há indícios de que a pressão para dominar essas ferramentas gera sobrecarga em ambientes de trabalho. Além disso, estudos preliminares apontam aumento de estresse e sintomas de depressão em pessoas expostas constantemente a conteúdos produzidos por sistemas generativos.

Embora ainda não esteja claro se a reação do público indica uma bolha prestes a estourar, o fenômeno da fadiga de IA já move protestos, influencia tendências de consumo e impulsiona o desenvolvimento de soluções destinadas a limitar ou remover algoritmos do cotidiano digital.

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