Erro de conversão custou à NASA a sonda Mars Climate Orbiter, avaliada em mais de R$ 650 milhões

Brasília, 4 de fevereiro de 2026 — Um equívoco na conversão de unidades de medida fez com que a NASA perdesse, em 1999, a sonda Mars Climate Orbiter, um artefato orçado em aproximadamente US$ 327 milhões — valor que, corrigido para o câmbio atual, supera R$ 650 milhões. Enviada para estudar o clima marciano e servir como retransmissora de dados de outra missão de superfície, a nave acabou entrando na atmosfera do planeta em uma trajetória fatalmente baixa, sem chance de recuperação.

Como ocorreu a falha

A causa imediata foi a adoção simultânea de dois sistemas de medida distintos. Parte da equipe responsável pelos comandos de propulsão registrava dados em libras-força (imperial), enquanto o software de navegação interpretava essas informações como newton-segundos (SI). A diferença entre as duas unidades, embora conhecida, não foi corrigida antes do lançamento nem identificada durante as rotinas de verificação já em voo.

A cada manobra de correção de trajetória, a sonda recebia impulsos diferentes dos calculados. O desvio não parecia expressivo em um primeiro momento, mas se acumulou ao longo de nove meses de viagem interplanetária. Quando o Mars Climate Orbiter se aproximou de Marte, deveria estabelecer órbita a cerca de 140 quilômetros de altitude; em vez disso, cruzou a camada atmosférica a aproximadamente 57 quilômetros, ponto onde a nave não resistiu ao atrito e se desintegrou.

Falta de padronização exposta

O incidente evidenciou a importância do Sistema Internacional de Unidades (SI) em programas que envolvem múltiplas equipes, fornecedores e linguagens de programação. O SI é adotado oficialmente pela maior parte da comunidade científica justamente por reduzir ambiguidades, facilitar cálculos e tornar comparáveis resultados obtidos em diferentes países. Sua estrutura decimal, com sete unidades básicas, simplifica conversões internas e evita confusões como a que condenou a sonda.

Relatórios produzidos depois do acidente apontaram não apenas o problema de conversão, mas falhas adicionais: ausência de auditorias independentes focadas em unidades, processos de documentação incompletos e comunicação insuficiente entre setores. Na época, políticas formais que exigissem a verificação explícita de grandezas físicas em cada interface de software ainda não eram universais.

Consequências para futuras missões

A perda do Mars Climate Orbiter levou a NASA a revisar protocolos de projeto, testes e integração. Entre as mudanças, destacam-se:

  • Padronização precoce: definição, desde a fase de concepção, de qual sistema de unidades será usado por todas as equipes e fornecedores.
  • Documentação obrigatória: especificação explícita da unidade associada a cada variável física em códigos-fonte, planilhas e manuais.
  • Ferramentas de validação: adoção de softwares que exibem unidades na entrada e na saída de dados, gerando alertas quando ocorre mistura inconsistente.
  • Testes de consistência: realização de simulações que comparam resultados gerados pelos diferentes módulos e identificam discrepâncias antes do lançamento.
  • Auditorias externas: criação de etapas independentes de checagem de requisitos, focadas principalmente em interfaces onde ocorre troca de dados numéricos.

Essas recomendações foram incorporadas a manuais internos e, posteriormente, difundidas por outras agências espaciais e empresas privadas. O objetivo é impedir que erros aparentemente simples provoquem perdas financeiras elevadas ou comprometam anos de pesquisa.

Resistência ao sistema imperial

Embora o SI seja predominante em ciência e tecnologia, milhas, pés e libras ainda são comuns em setores como construção civil, transporte e varejo, sobretudo em países de tradição imperial. Mudar equipamentos, treinamentos e regulamentos implica custos significativos, motivo pelo qual a transição, em muitos casos, acontece de forma gradual.

No entanto, para projetos de alta criticidade, a convivência entre sistemas de medida representa risco crescente. A experiência da NASA em 1999 tornou-se um exemplo clássico citado em universidades, congressos de engenharia e relatórios de gestão de risco, reforçando a necessidade de convergência ao SI em missões que envolvem múltiplos parceiros internacionais.

Lições aprendidas

Especialistas apontam que evitar equívocos semelhantes exige disciplina desde o primeiro rascunho do projeto. Quando não for viável adotar exclusivamente o SI, controles rigorosos de conversão, rastreabilidade de dados e comunicação clara entre equipes tornam-se indispensáveis. Nas palavras de um auditor interno da época, “é mais barato verificar unidades dez vezes do que perder uma nave”.

Passados mais de 25 anos, o desaparecimento do Mars Climate Orbiter permanece como alerta de que, em engenharia espacial, nenhum detalhe é pequeno demais para ser ignorado.

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