Corrida mundial pelos chips de 2 nm coloca tecnologia no centro da disputa geopolítica

São Paulo – A transição para a litografia de 2 nanômetros (nm) passou de desafio industrial a questão estratégica de Estado. Empresas e governos enxergam na nova geração de semicondutores o elemento capaz de sustentar futuros data centers, aplicações de inteligência artificial e infraestrutura crítica, tornando o controle dessa produção um ativo de soberania, produtividade e defesa.

Por que 2 nm importa

Na nomenclatura da indústria, 2 nm indica um processo de fabricação que permite condensar mais transistores em uma mesma área de silício. Esse aumento de densidade se converte em maior desempenho computacional e melhor eficiência energética. Para servidores em nuvem, notebooks, veículos conectados e dispositivos móveis, ganhos de desempenho por watt significam menos consumo, menor aquecimento e redução de custos operacionais.

Em centros de computação de larga escala, cada ponto percentual de economia energética resulta em diferença financeira expressiva. Menos eletricidade para tarefas idênticas significa mais capacidade por rack, maior margem para treinar modelos de IA e, consequentemente, vantagem competitiva.

Equipamentos raros e caros

A fabricação em 2 nm exige litografia ultravioleta extrema (EUV), tecnologia dominada por um número reduzido de fornecedores. As máquinas EUV, essenciais para gravar padrões microscópicos nos wafers, podem custar aproximadamente US$ 150 milhões cada, sem contar logística, instalação e manutenção. Poucas fabricantes de chips possuem capital e know-how para integrar esses sistemas em escala, o que cria gargalos na cadeia.

Nesse cenário, equipamentos EUV se tornaram ponto de estrangulamento. Quando há restrições de exportação ou sanções, toda a produção avançada é afetada, espalhando impactos por setores que vão de smartphones a sistemas de automação industrial.

Principais competidores

Duas empresas asiáticas e uma norte-americana lideram a corrida:

  • TSMC – tenta ampliar a produção em 2 nm mantendo alto rendimento para clientes globais. O principal risco está na concentração de fábricas em uma única região, suscetível a tensões geopolíticas.
  • Samsung – busca provar ao mercado que seu processo de 2 nm é competitivo e confiável em grandes volumes. A taxa de rendimento (chips bons por wafer) ainda é considerada o ponto sensível.
  • Intel – aposta no nó batizado de “Intel 18A” para recuperar liderança e atrair empresas à sua divisão de foundry. O desafio principal é executar a expansão em escala e conquistar contratos de peso.

Disputa virou política industrial

Além das fabricantes, governos das principais economias intensificam incentivos, subsídios e parcerias. Estados Unidos e União Europeia aceleram políticas de semicondutores para reduzir dependência externa. Um exemplo é a previsão de inauguração, na Europa, de uma linha-piloto equipada com litografia High-NA EUV até 2026, iniciativa destinada a garantir autonomia tecnológica no longo prazo.

A vulnerabilidade da cadeia global de semicondutores é ampla. Projetistas, fornecedores de materiais, gases especiais, embalagem avançada e fábricas estão distribuídos por diversos países. Qualquer interrupção — crises regionais, sanções ou restrições comerciais — repercute na entrega de servidores, dispositivos móveis e sistemas de defesa, ampliando a sensação de urgência por produção doméstica ou aliada.

Impactos para o consumidor

Para o usuário final, os avanços em 2 nm não se resumem a smartphones mais rápidos. Ao permitir maior autonomia de bateria, menor aquecimento e recursos de IA embarcada, a tecnologia influencia diretamente a experiência cotidiana. Ao mesmo tempo, a eficiência energética em escala de data centers reflete em serviços on-line mais estáveis e, potencialmente, em custos menores de operação, embora esse repasse dependa de decisões comerciais das empresas.

Custos e riscos

Os investimentos necessários para estabelecer fábricas em 2 nm ultrapassam dezenas de bilhões de dólares. Entre aquisição de terrenos, construção de clean rooms, compra de máquinas EUV e treinamento de equipes, o prazo para retorno financeiro é longo. Nesse período, oscilações na demanda, avanços concorrentes ou mudanças regulatórias podem comprometer a viabilidade econômica dos projetos.

Além disso, a escala global de suprimentos torna cada elo da cadeia crítica. Elementos como gás neon de alta pureza, fotorresistes especiais e câmaras de vácuo precisam chegar pontualmente às linhas de produção. Qualquer atraso pode paralisar fábricas que operam 24 horas por dia, sete dias por semana.

Perspectivas

Embora o cronograma exato varie entre fabricantes, a expectativa é de que os primeiros chips comerciais em 2 nm cheguem ao mercado nos próximos anos, inicialmente em volumes limitados. À medida que o rendimento melhora e os custos se diluem, a tecnologia deve se expandir para segmentos mais amplos, consolidando novas fronteiras de desempenho e eficiência.

Enquanto isso, a disputa por liderança técnica permanece acirrada, com cada avanço repercutindo não apenas nos balanços corporativos, mas também no equilíbrio de poder entre nações que dependem de semicondutores para sustentar suas economias digitais.

O resultado da corrida pelo 2 nm, portanto, tende a moldar a próxima década de inovação, segurança e competitividade global.

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