Bateria de Bagdá: artefato romano pode ter gerado até 1,4 volt, apontam réplicas

Bagdá, 13 de fevereiro de 2026 – Um vaso de cerâmica com cilindro de cobre, haste de ferro e vedação de betume, datado entre os séculos I e III d.C., segue dividindo especialistas sobre seu propósito original. Conhecido como “Bateria de Bagdá”, o objeto arqueológico encontrado na região da atual capital iraquiana é apontado por alguns pesquisadores como uma célula eletroquímica rudimentar capaz de produzir pequena diferença de potencial.

Configuração semelhante a células galvânicas

As descrições do achado revelam que o cilindro de cobre circunda a haste de ferro sem contato direto, situação equivalente ao arranjo de pares galvânicos modernos. Em teoria, o espaço vazio poderia ser preenchido com líquidos ácidos ou condutores disponíveis à época, como vinagre, sucos fermentados ou soluções naturais ricas em ácido, funcionando como eletrólito.

Experimentos conduzidos com réplicas indicaram geração de aproximadamente 1 volt por unidade. A porosidade da cerâmica também permitiria posicionar dois ou mais recipientes em sequência, elevando a tensão para cerca de 1,4 volt. Nesses cenários, observou-se formação de bolhas em água e escurecimento de superfícies metálicas, fenômenos associados à passagem de corrente elétrica de baixa intensidade.

Argumentos a favor do uso elétrico

Defensores da hipótese eletroquímica lembram que:

  • a combinação ferro-cobre constitui um par galvânico clássico;
  • eletrólitos fracos, mas suficientes para condução, eram conhecidos e empregados em processos de curtimento, metalurgia e conservação;
  • testes laboratoriais, com condições controladas, conseguiram reproduzir voltagens estáveis superiores a 1 volt.

Embora a corrente disponível seja limitada, os ensaios mostram potencial para acelerar corrosão controlada, escurecer joias de prata ou até surpreender observadores por meio de discretos choques táteis – efeitos que poderiam ter valor prático ou ritual.

Ceticismo e hipóteses rituais

Outros arqueólogos, no entanto, contestam a função elétrica. Os principais pontos de discordância incluem:

  • inexistência de relatos textuais sobre aplicações eletroquímicas na Antiguidade local;
  • ausência de instrumentos auxiliares – como fios, eletrodos adicionais ou objetos que dependessem de corrente – nas mesmas camadas arqueológicas;
  • sensibilidade do conjunto: vedação com betume, espessura variável do cobre e densidade do eletrólito tornariam a produção de energia imprevisível.

Alguns especialistas sugerem que o vaso funcionava como recipiente selado para proteger pergaminhos, relíquias ou inscrições de maldição, prática atestada em diversos sítios do Oriente Médio. Nesse contexto, qualquer reação química interna poderia ter papel simbólico, reforçando a ideia de “força oculta” sem finalidades tecnológicas objetivas.

Perda do original dificulta novas análises

O objeto original desapareceu durante conflitos recentes no Iraque, limitando o acesso a medições diretas. Pesquisadores dependem de fotografias, relatórios antigos e modelos reconstruídos com base nas dimensões registradas. Essa lacuna intensifica a controvérsia, pois ajustes mínimos em espessura metálica ou composição do betume podem alterar significativamente a performance elétrica.

Consenso parcial

Apesar da divergência sobre o propósito exato, há concordância quanto a dois pontos: a combinação de materiais é capaz de produzir voltagem mensurável, e artesãos dos primeiros séculos da era cristã dominavam técnicas complexas de metalurgia e selagem. Se esses conhecimentos foram aplicados deliberadamente para gerar eletricidade ou apenas resultaram em reações químicas incidentais permanece em aberto.

Enquanto o debate prossegue, a “Bateria de Bagdá” segue inspirando réplicas acadêmicas, experiências em museus e programas de televisão que exploram a possibilidade de uma tecnologia elétrica antecipada em quase dois milênios. Sem o artefato original para confirmação definitiva, a controvérsia deve continuar alimentando estudos que mesclam arqueologia, química e história das ciências.

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