Apenas um terço das empresas brasileiras aplica IA nas rotinas diárias, mostra pesquisa da Qive
O uso de Inteligência Artificial (IA) ainda não faz parte da realidade da maioria dos backoffices no Brasil. Levantamento divulgado pela Qive, no quarto capítulo do estudo Panorama do Contas a Pagar 2026, revela que somente 33% das empresas incorporam a tecnologia às atividades cotidianas e apenas 16% destinaram orçamento exclusivo para soluções de IA nos 12 meses anteriores à pesquisa. Outros 40% não aplicam nenhum recurso financeiro no tema.
Quem participou do estudo
Os dados resultam de pesquisa encomendada pela Qive ao Opinion Box. Foram ouvidos 406 profissionais de distintos portes e segmentos entre 25 de agosto e 18 de setembro de 2025. O objetivo foi mapear o grau de maturidade operacional de áreas como financeiro, fiscal, contábil, compras, TI e controladoria.
Maturidade avança lentamente
Embora o reconhecimento do backoffice como setor estratégico venha crescendo, a evolução tecnológica ainda encontra barreiras. Na edição anterior do levantamento, realizada em 2024 e divulgada em janeiro de 2025, apenas três em cada dez entrevistados classificaram o backoffice de suas empresas como desenvolvido. Na mesma ocasião, só 27% concordaram totalmente que essas áreas efetivamente contribuíam para o negócio.
“O backoffice já compreende seu papel estratégico, mas permanece preso a processos analógicos, dados fragmentados e baixa automação”, afirma Isis Abbud, cofundadora e co-CEO da Qive. Para ela, há um descompasso entre ambição e capacidade de gerar inteligência para a empresa.
IA interessa, mas não vira investimento
Apesar do uso restrito, a inteligência artificial desperta atenção dos profissionais. Metade dos entrevistados (51%) pretende investir em conhecimento de IA nos próximos 12 meses, e 39% querem se desenvolver em planejamento e estratégia. A prática, porém, segue limitada: além dos 16% que alocaram verba específica, 23% realizaram testes sem orçamento formal; 25% ainda não investiram, mas planejam fazê-lo no próximo ano; e 55% não investem nem têm previsão.
Quando adotada, a tecnologia apoia sobretudo a produtividade. Entre os benefícios citados estão aumento de produtividade da equipe (26%), redução do tempo gasto na elaboração de relatórios (22%) e análises de dados mais precisas (22%).
Planilhas continuam dominantes
Mesmo com a disponibilidade de sistemas de gestão empresarial (ERP), mais da metade dos profissionais entrevistados declara depender de planilhas, seja de forma exclusiva ou combinada com software dedicado. A automação aparece concentrada em tarefas de registro, como lançamento de entradas em sistemas (10%), controle de estoque (9%) e geração de relatórios de desempenho e custos (9%).
Processos de maior valor estratégico praticamente não entram na lista de automação: análise de dados não foi mencionada por nenhum participante, enquanto monitoramento de fraudes e avaliação de desempenho de fornecedores foram lembrados por apenas 4% cada. Ainda assim, 83% das companhias contam com alguma estrutura voltada a dados, interna ou terceirizada, indicando demanda crescente por informação e análise.
Volume de transações eleva riscos
A baixa automação expõe as organizações a falhas em um ambiente de grande movimentação financeira. Entre os respondentes, 29% lidam mensalmente com 201 a 1.000 recebimentos e 21% ultrapassam a marca de 1.000. Do lado dos pagamentos, 22% executam de 51 a 100 operações por mês, 19% processam de 101 a 500 e 17% superam 1.000.
Essa realidade já resultou em problemas: 25% relataram atrasos no cumprimento de datas de vencimento, 24% efetuaram pagamentos em duplicidade e 17% registraram erros de informação. A maioria aponta perda de até 1% da receita devido a desembolsos indevidos, enquanto 22% dizem que o impacto negativo aumentou em relação ao ano anterior.
Contraste entre planos e prática
O cenário descrito pelo Panorama do Contas a Pagar 2026 destaca que as organizações enxergam o potencial estratégico do backoffice, mas ainda concentram esforços em tarefas operacionais. “As áreas utilizam tecnologia para registrar o que aconteceu, mas têm dificuldade para prever riscos, apoiar decisões e capturar ganhos de eficiência em escala”, observa Isis Abbud.
A pesquisa conclui que, para superar o estágio atual, será necessário conectar bases de dados, automatizar fluxos de ponta a ponta e liberar equipes de atividades repetitivas, permitindo foco em análise, planejamento e tomada de decisão. Enquanto isso não ocorre, a aplicação de inteligência artificial permanece restrita a uma parcela limitada das empresas brasileiras.



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