Doomscrolling: como o hábito de rolar notícias negativas prende o cérebro por horas
Verificar o celular “só por um instante” e acabar preso à tela por horas tornou-se rotina para muitos usuários. O fenômeno, conhecido como doomscrolling — a rolagem incessante por conteúdos, em geral negativos —, ganhou explicação científica e revela a forma como plataformas digitais capturam a atenção dos internautas.
Recompensa que nunca chega
Pesquisas em neurociência indicam que o cérebro humano é programado para buscar novidades. Cada deslizar de dedo aciona o sistema de recompensa, responsável pela liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer. Entretanto, o conteúdo que surge após a rolagem nem sempre é interessante. Essa incerteza cria um ciclo de expectativa semelhante ao observado em jogos de azar, sustentado pelo chamado “reforço intermitente”.
Nos experimentos clássicos da psicologia, recompensas imprevisíveis geraram maior dependência do que recompensas garantidas. Nas redes sociais, a promessa de um vídeo engraçado, uma manchete impactante ou uma notificação pessoal desencadeia o mesmo mecanismo: o cérebro libera dopamina apenas pela possibilidade de receber algo relevante. Quando o usuário finalmente encontra algo envolvente, o circuito é reforçado e a busca recomeça.
Algoritmos que aprendem rápido
O prolongamento da navegação não ocorre por acaso. Plataformas ajustam seus algoritmos para priorizar publicações que despertem emoções fortes, como medo, raiva ou curiosidade — conteúdos que, estatisticamente, mantêm o público conectado por mais tempo. Enquanto o usuário desliza a tela, o sistema recolhe dados de preferências e comportamento, refinando ainda mais a seleção do que aparece no feed.
O objetivo não é informar, mas maximizar tempo de exposição. Cada segundo adicional permite exibir mais anúncios, base do modelo de negócios das redes. A atenção, portanto, transformou-se em ativo econômico, e os aplicativos competem entre si para capturá-la.
Dependência digital em construção
Especialistas alertam que o doomscrolling pode evoluir para dependência digital quando a ausência do estímulo provoca ansiedade ou desconforto. Dois fatores são considerados decisivos: acesso irrestrito e repetição diária. Como o celular permanece ao alcance do usuário desde o despertar até minutos antes de dormir, as chances de iniciar uma nova sessão de rolagem aumentam exponencialmente.
Com o passar do tempo, o cérebro busca recompensas cada vez mais intensas para obter o mesmo nível de satisfação, processo semelhante ao observado em outras formas de vício. A consequência é a dificuldade de lidar com silêncio, espera e tarefas prolongadas, resultando em fadiga mental e menor capacidade de concentração.
Economia da atenção
A estrutura que sustenta o doomscrolling expõe os limites cognitivos de forma sistemática. Plataformas utilizam notificações sonoras, banners coloridos e vídeos de curta duração como gatilhos para interromper atividades e redirecionar o foco do usuário. Quanto mais fragmentada se torna a atenção, maior a vulnerabilidade a esses estímulos.
O fenômeno também se apoia na percepção de que é preciso estar constantemente informado. A sucessão de notícias negativas, principalmente em períodos de crise, estimula o impulso de verificar atualizações em busca de segurança ou controle, fortalecendo o ciclo de navegação interminável.
Caminhos para retomar o controle
Especialistas recomendam estratégias simples para reduzir o tempo de rolagem, como desativar notificações não essenciais, estabelecer horários específicos para checar redes sociais e manter o aparelho fora do alcance durante períodos de estudo ou descanso. Produções audiovisuais, como vídeos educativos do canal Psych2Go, têm popularizado orientações práticas para lidar com o problema.
Segundo pesquisadores, reconhecer o funcionamento do reforço intermitente é o primeiro passo para quebrar o ciclo. Ao compreender que as plataformas foram projetadas para estender o tempo de uso, o indivíduo pode adotar hábitos de consumo de informação mais conscientes e proteger a própria saúde mental.
Embora o doomscrolling seja frequentemente associado à falta de disciplina, estudos apontam que se trata, na verdade, de um sistema cuidadosamente construído para explorar vulnerabilidades cognitivas. A compreensão desse processo revela que, na disputa pela atenção, o usuário precisa de estratégias ativas para resguardar seu tempo — e, sobretudo, sua concentração.
Data de publicação original: 01/02/2026, 21h01.



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