Atores e cineastas lançam campanha global para barrar uso não autorizado de obras em treinamentos de IA
Scarlett Johansson e Cate Blanchett encabeçam uma mobilização internacional que reúne mais de 700 profissionais da indústria audiovisual contra o uso de obras protegidas por direitos autorais em sistemas de inteligência artificial (IA) sem consentimento ou pagamento.
O movimento, batizado de “Stealing Isn’t Innovation” (“Roubo não é inovação”, em tradução livre), ganhou visibilidade após a divulgação de uma carta aberta em 27 de janeiro de 2026. O documento cobra regras claras de empresas de tecnologia e legisladores para proteger criadores cujo trabalho é utilizado na etapa de treinamento de modelos generativos.
Reivindicações principais
Os signatários defendem três pilares centrais:
- Licenças formais: qualquer uso de roteiros, imagens, vozes, trilhas ou performances deve estar amparado em contratos específicos com os titulares dos direitos.
- Remuneração justa: artistas e demais criadores precisam receber compensação financeira proporcional quando suas obras integrarem bancos de dados de IA.
- Transparência e opt-out: as empresas devem divulgar publicamente quais materiais foram incluídos nos treinamentos e oferecer mecanismo simples para que o autor retire sua obra caso não concorde.
“Não somos contra tecnologia, somos contra roubo”
No texto, o grupo enfatiza que não se opõe aos avanços tecnológicos. A crítica se concentra na prática de coletar catálogos inteiros de filmes, músicas, fotos e roteiros “sem pedir licença nem pagar”, prática considerada pelos artistas como uma violação direta de direitos autorais. “Se o futuro da inovação depende de tomar o trabalho alheio sem autorização, isso não é progresso: é roubo”, reforça a carta.
Impactos na cadeia criativa
Os profissionais alertam que a reprodução automática de estilos, vozes e imagens por IA pode:
- Reduzir a contratação de atores, dubladores, músicos e ilustradores humanos;
- Diminuir a remuneração média de roteiristas e compositores;
- Colocar em risco a exposição de novos talentos, que concorrem com conteúdos sintéticos mais baratos;
- Concentrar receitas em grandes plataformas, aprofundando a desigualdade no setor cultural.
Outro ponto sensível é o direito de personalidade. Ferramentas de clonagem já conseguem simular voz, rosto e expressões de figuras públicas, abrindo brechas para fraudes de identidade e uso indevido de imagem.
A adesão dos nomes de peso
Além de Scarlett Johansson e Cate Blanchett, o manifesto recebeu apoio de atores, diretores, roteiristas, produtores e dubladores de diferentes países. Segundo os organizadores, a participação de artistas consagrados amplia o alcance do debate e pressiona autoridades a avançar em regulações.
Cenário regulatório
Parlamentares de Estados Unidos, União Europeia e América Latina discutem atualizações das leis de copyright a fim de definir responsabilidades de desenvolvedores e usuários de IA generativa. Entre as propostas em análise estão:
- Criação de bancos de dados licenciados, compostos apenas por obras autorizadas;
- Sistemas de rastreamento para identificar que conteúdo foi usado em cada etapa do treinamento de IA;
- Padrões de governança que obriguem as empresas a divulgar relatórios periódicos sobre fontes de dados.
Possíveis caminhos de conciliação
Especialistas em propriedade intelectual sugerem acordos de licenciamento coletivo com editoras, gravadoras e estúdios, nos moldes dos já adotados por serviços de streaming musical. Essa estrutura permitiria remunerar criadores enquanto mantém as inovações de IA dentro de parâmetros legais.
Outra alternativa é a adoção de etiquetas digitais que acompanhem cada obra, registrando sua origem e condições de uso. Esses metadados funcionariam como uma “assinatura” que software de IA poderia reconhecer e respeitar, evitando treinamento não autorizado.
Próximos passos
A campanha “Stealing Isn’t Innovation” pretende levar o tema a fóruns legislativos e conferências de tecnologia ao longo de 2026. Organizações do setor cultural planejam ainda workshops para explicar a artistas iniciantes como identificar se suas criações foram utilizadas por sistemas automatizados e quais medidas legais podem ser adotadas.
Enquanto o debate avança, estúdios de cinema, gravadoras e plataformas de streaming também observam o desfecho das negociações. Muitos avaliam fechar contratos diretos com empresas de IA para liberar parte de seus catálogos, desde que haja contrapartida financeira e salvaguardas contra usos não autorizados.
Até a definição de novas regras, criadores seguem mobilizados para garantir que a disseminação da IA ocorra de forma a preservar tanto a inovação tecnológica quanto a sustentabilidade econômica da produção cultural.



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